Mercadores da Morte: criança de família carente foi enterrada em caixão usado em Criciúma; veja as intercepções feitas pelo GAECO durante investigação

Conversas mostram empresários preocupados com cargos de apadrinhados políticos do Secretário de Assistência Social de Criciúma Bruno Ferreira.

Por Tcharlles Fernandes
Buscas realizadas pelo Gaeco na sede da Central de Serviços Funerários de Criciúma.

No dia 28 de novembro de 2023, o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO) cumpriu mandados de busca e apreensão durante a Operação Mercadores da Morte, em Criciúma. As buscas ocorreram na Central de Serviços Funerários, no Paço Municipal Marcos Rovaris e na residência do Secretário de Assistência Social Bruno Ferreira. 

O Procedimento Investigatório Criminal (PIC) foi instaurado em 2022 e desde então o GAECO vem apurando supostas irregularidades envolvendo a prestação de serviços funerários no município, bem como a suposta prática dos crimes de organização criminosa e corrupção por parte do Secretário de Assistência Social Bruno Ferreira.

Ontem, dia 27, o Portal Melhores Publicações teve acesso ao inquérito sigiloso que trata da investigação. No documento de 735 páginas, conforme o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), fica evidenciada a participação do Secretário Bruno Ferreira no esquema criminoso. 

Troca de favores para que funerárias efetuem a contratação de funcionário (s) indicado (s) pelo Secretário Bruno Ferreira

O PIC foi instaurado com intenção de apurar a prática, em tese, dos crimes de organização criminosa, fraude em procedimento licitatório, crimes fiscais e contra as relações de consumo e corrupção, cujas suspeitas de autoria recaem sobre o secretário Bruno Ferreira e mais seis pessoas.

As representações inicialmente apresentadas narraram que o município de Criciúma promoveu a alteração da legislação local para reduzir de seis para quatro o número de funerárias que podem prestar serviço no município. Inclusive, consta na investigação que a alteração teria ocorrido para "beneficiar grandes grupos funerários de cidades de fora" e que apenas quatro funerárias não são suficientes para a quantidade de habitantes do município de Criciúma.

A referida alteração legislativa ocorreu por meio da edição da Lei Complementar n. 466, de 08/06/2022, dando nova redação ao § 3° do artigo 4° da Lei Complementar n. 159/2015, que dispõe sobre o serviço funerário, Central de Serviços Funerários, administração de cemitérios e dá outras providências.

Além disso, consta que o município de Criciúma lançou o procedimento licitatório Concorrência Pública – Edital n. 013/FMAS/2022, objetivando a concessão onerosa à quatro empresas para exploração dos serviços funerários, pelo período de cinco anos, nos limites do município de Criciúma.

Durante as investigações, restaram colhidos elementos de prova apontando que o Secretário Bruno Ferreira tinha plena consciência das ilegalidades que eram praticadas pelas funerárias.

A investigação destaca também que as funerárias estariam servindo para empregar e remunerar pessoas com aproximação política do Secretário Bruno Ferreira.

Gerentes de funerárias estavam desconfiados que Bruno poderia estar fazendo "rachadinha".

Na ligação acima, é nitida a preocupação por parte de representantes de uma funerária que presta serviço em Criciúma. Os alvos, durante a conversa, falam que é preciso contratar funcionários indicados por Bruno Ferreira, para que consigam trabalhar em paz. "O Bruno não vai sossegar, tá, porque tu sabe que o Bruno, ele tem dois cargos como ele sempre teve, eu não sei se os dois caras fazem política, vão fazer política de graça pra ele, ou se eles devolvem uma parte do salario pra ele", disse o representante de uma empresa.

Administradores das funerárias falam de cargos indicados por Bruno e mostram-se incontentes.

Pelo contexto das ligações, denota-se que, mesmo contrário à contratação de um indicado de Bruno, o dirigente da funerária atendeu ao pedido/exigência do Secretário, pagando salários de aproximadamente R$ 3.900,00. Na mesma função, uma mulher que trabalha em uma filial da funerária em Florianópolis recebe cerca de R$ 1.800,00 mensal.

Bruno Ferreira 

Durante as investigações, outras conversas relevantes envolvendo Bruno foram interceptadas. Um dos assuntos tratados em uma das ligações foi sobre um caso que chocou Criciúma e região, quando uma criança de seis meses foi enterrada no cemitério do bairro Brasília em um caixão usado. Ficou demonstrado nas investigações que Bruno, mesmo sabendo que a urna estava em péssimas condições, defendeu, publicamente em um jornal da cidade, o serviço prestado por uma das empresas que fazia parte de seu “esquema” e que empregava um de seus indicados. 

A primeira ligação ocorreu às 10h do dia 18/10/2023, entre Bruno e outro funcionário da prefeitura - não investigado. Durante o diálogo, os servidores públicos trataram sobre a notícia que veio a público em relação ao uso de um caixão já usado no velório de uma criança. Bruno comentou que pelas fotos, apresentadas em uma denúncia realizada pelo vereador Manoel Roseng (PP), o caixão estava em péssimo estado de conservação, usando a seguinte expressão: “parece que caiu da mudança”.

Bruno fala que caixão usado no velório de criança parece que "caiu da mudança"

Em outro telefonema, também no dia 18 de outubro, às 15h07min, Bruno Ferreira concede entrevista ao Jornal Tribuna de Notícias. De forma contrária à que tinha dito em ligação com Henderson, às 10h, para proteger um de seus parceiros, Bruno comenta que não houve irregularidades na prestação de serviço da funerária, no caso do velório da criança.

Ainda em conversa com o jornalista Edson Padoin, Bruno relatou que fez vistoria na Central de Serviços Funerários e no depósito, sendo que, em poucas palavras, salientou que a informação sobre o péssimo estado do caixão fornecido não procede, sendo que há um fiscal e uma assistente social da prefeitura no local e, que alguns serviços optativos, ou seja, não inclusos no pacote assistencial, foram solicitados pela família, porém, o assunto foi utilizado como “palanque político” por alguns vereadores. 

Ao final da entrevista, o jornalista Edson Padoin questionou se, além das quatro funerárias que ganharam o certame, outras poderiam prestar serviço. Bruno respondeu que não. Dessa forma, por não estar credenciada, a empresa que forneceu o caixão para criança não poderia prestar serviços funerários em Criciúma. Bruno tinha conhecimento da proibição, mas mesmo assim fez “vista grossa” e permitiu que a funeraria, que empregava um apadrinhado politico seu, continuasse operando.

Em entrevista, Bruno muda o discurso em relação a conversa com Henderson.

Logo em seguida, às 16h01min, Bruno conversou com o Secretário da Defesa Civil de Criciúma, Fred Gomes - não investigado - e, ao ser questionado sobre a situação da Central de Serviços Funerários, Bruno relatou que é tudo “fake” e, dependendo do ângulo que a foto é tirada, o buraco da “chaveta” parece uma “cratera”. Todavia, Bruno disse que teria cobrado da funerária que, “numa situação dessa”, poderiam ter passado um “pincelzinho branco pra dar uma caprichadinha”. 

Na conversa com Fred, Bruno destacou, ainda, que faltou defesa por parte dos vereadores da base governista e que o assunto na prefeitura durante o dia foi só serviço funerário, sendo que às 7h já estava conversando com o Secretário-Geral de Criciúma Arleu da Silveira sobre o tema. 

Em um dos trechos da conversa, Fred se demonstra bravo com a repercussão do caso envolvendo o enterro da criança. "Vai tomar no cú, né cara, tão dando caixão, querem caixão de ouro ainda?", disse o Secretário da Defesa Civil criciumense.

Bruno diz que tudo é fake. 

Proteção aos empresários no caso do caixão em péssimas condições 

Para os investigadores do GAECO, em decorrência dos acontecimentos já mencionados, Bruno convocou uma reunião com os propietários das funerárias para tratar de assuntos relacionados a Central de Serviços Funerários e, achar uma forma de "abafar" a situação envolvendo o enterro da criança. Bruno, conforme os investigadores estaria tentando proteger os empresários de críticas que vinham sofrendo sobre o caso e de uma investigação iniciada pelo vereador Juarez de Jesus (PSD).

Antes da reunião, que ocorreu no Paço, os policiais do GAECO fizeram monitoramento das pessoas que participariam do encontro. Entre os participantes estava um empresário que não figura entre os representantes das quatro concessionárias que são autorizadas a prestar serviço na cidade. 

Representantes das funerárias deixando o Paço.

Dois dias depois da reunião na prefeitura, os investigadores registraram na Central de Serviços Funerários, conforme o inquérito, a presença do mesmo empresário que esteve na reunião ocorrida no Paço. O fato novamente chamou atenção, uma vez que, como supracitado, a empresa que o homem representa não figura entre uma das quatro autorizadas a trabalhar em Criciúma.

Na saída, após a reunião, Bruno não entrou em seu carro, mas sim no carro de um dos empresários que estava com ele. 

Bruno deixando a Central Funerária após reunião com empresários representantes das empresas.

Após os alvos da investigação deixarem o local juntos, os policiais começaram a seguir o carro em que todos estavam. Depois de 20 minutos percorrendo algumas ruas da cidade, o automóvel foi até um prédio e retornou à Central de Serviços Funerários, onde já se encontrava outra pessoa que também esteve na reunião ocorrida na prefeitura dois dias antes.

Gaeco registra encontro de Bruno Ferreira com empresários.

Depois de mais uma vez se reunirem, os envolvidos entram em seus respectivos carros e seguem seus destinos. A partir disso, a equipe de investigação se deslocou até o prédio onde Bruno tinha ido com os empresários, localizado na Rua Francisco Milioli, no bairro Pinheirinho. Em conversa com alguns trabalhadores do prédio, os agentes foram informados que no local se pretende instalar a sede de três funerárias, sendo que no segundo andar estavam depositados diversos caixões. Na parte térrea do prédio foi possível observar algumas coroas de flores e um freezer.

As investigações continuam

Após a operação deflagrada em Criciúma, os vereadores Manoel Rozeng e Juarez de Jesus, citados na matéria, já foram ouvidos pelo Promotor de Justiça responsável do caso. Há informações que os vereadores Julio César Kaminski (PP) e José Paulo Ferrarezi (MDB) também teriam prestado declarações, mas o Portal não obteve essa confirmação.

A expectativa agora, conforme fontes ouvidas pela reportagem, é com relação ao resultado da análise dos celulares apreendidos durante a Operação na casa dos investigados. Não se descarta novas fases da Operação, isso porque alguns dos funcionários indicados pelo Secretário permanecem trabalhando nas funerárias investigadas.

O prefeito Clésio Salvaro (PSD) , bem como o Secretário-Geral de Criciúma, Arleu da Silveira, não são investigados e não possuem nenhuma relação com os fatos apurados na investigação.

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