O Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) desencadeou uma operação para apurar a possível prática de fraudes em licitações em contratos envolvendo a Prefeitura Municipal de Criciúma (PMC) durante a gestão do ex-prefeito Clésio Salvaro (PSD). As investigações indicam a existência de suposto conluio entre licitantes e agentes públicos, além de irregularidades como a sobreposição de contratos, pagamentos em duplicidade por um mesmo serviço e outras condutas que podem ter causado prejuízo milionário ao erário. Há, ainda, indícios de geração de vantagem indevida para empresas contratadas e, eventualmente, de pagamento de propina a agentes públicos.
Conforme apurado pelos investigadores, o Contrato nº 192, firmado em 2021 entre a PMC e a empresa Triângulo Administração e Serviços Ltda. para a execução de serviços de limpeza urbana em ruas, avenidas, praças e parques do município, apresenta indícios de fraude. Segundo o Gaeco, o objetivo seria beneficiar o empresário Joverson Benedet, apontado como amigo pessoal de Salvaro.
Ao final do processo, a Ecosystem foi declarada vencedora. No entanto, conforme apontam as investigações, as duas empresas — representadas pela mesma pessoa — teriam posteriormente formalizado um consórcio, em conformidade com ajuste prévio, ficando a Triângulo na condição de empresa líder.
Contrato emergencial também está sob investigação
Além das suspeitas de fraude à licitação, os investigadores apontam possíveis irregularidades em um contrato emergencial firmado, em 2024, com a empresa Ecosystem para a execução de serviços de limpeza urbana em ruas e avenidas de Criciúma. Conforme apurado, à época da contratação, ainda estavam vigentes ao menos dois contratos com o mesmo objeto — entre eles o de nº 192/PMC/2021 —, o que pode indicar possível sobreposição contratual e eventual pagamento indevido por serviços já contemplados em ajustes anteriores.
A justificativa para a contratação emergencial foi elaborada e assinada em 22 de novembro de 2024 pela vereadora Anequésselen Bitencourt Furtado (PSD), que à época ocupava a função de gestora do Fundo de Saneamento Básico (Funsab) do município.
Para quem conduz as investigações, há elementos suficientes para concluir que as afirmações feitas por Anequésselen na elaboração do pedido de autorização para a contratação emergencial não condizem com a verdade. Isso porque o contrato nº 192/PMC/2021 já previa a execução de serviços de limpeza de ruas e logradouros públicos.
Dessa forma, segundo o Gaeco, mesmo com a existência de um contrato vigente para a mesma finalidade, a vereadora teria elaborado o documento com o objetivo de viabilizar a contratação emergencial sem a devida realização de processo licitatório, buscando, confome os investigadores, favorecer a empresa com ligação a Joverson.
Outra licitação sob suspeita
Em janeiro de 2024, ainda durante a gestão do então prefeito Clésio Salvaro, foi elaborado um novo Termo de Referência com o objetivo de fundamentar a abertura de uma nova licitação para a prestação de serviços de limpeza urbana em Criciúma. O processo tinha como finalidade substituir os contratos nº 288/PMC/2018 e nº 192/PMC/2021.
A licitação, registrada como Pregão Eletrônico nº 002/FUNSAB/2024, foi realizada em 28 de março de 2025. Ao final do certame, a empresa Triângulo Administração e Serviços Ltda. foi declarada vencedora, após apresentar a melhor proposta, no valor de R$ 29.640.000,00 para a execução dos serviços pelo período de 24 meses.

Amizade entre Clésio e Joverson
Conforme descrito pelos investigadores durante a análise das evidências, as suspeitas de fraude assumem contornos ainda mais graves à medida que se ampliam as circunstâncias que envolvem os fatos. Nesse cenário, a relação entre o ex-prefeito Clésio Salvaro e o empresário Joverson Benedet passa a ocupar papel central nas apurações conduzidas pelo Gaeco.


No curso das investigações, o Gaeco interceptou um áudio em que Salvaro conversa com sua esposa, Adriana Goulart Salvaro, sobre possíveis acordos financeiros com Joverson. Adriana também está sendo investigada.
No relátorio da investigação, os policiais do Gaeco ressaltam o amplo histórico de contratações e o pagamento de valores expressivos por parte do Município de Criciúma e de fundos municipais ao grupo de empresas ligadas ao empresário Joverson Benedet. No total, entre 2013 e 2024, os repasses somam R$ 49,6 milhões. A gestão de Vagner Espíndola (PSD) não é alvo das investigações.


Procurados pela reportagem, o grupo Triângulo, o empresário Joverson Benedet e o ex-prefeito Clésio Salvaro não se manifestaram sobre os fatos até o momento. O espaço segue aberto.
A vereadora Anequésselen Bitencourt encaminhou uma nota à reportagem. Leia:
No exercício de suas funções, a Sra. Anequésselen pautou sua atuação pelos princípios da legalidade, eficiência e economicidade, promovendo, inclusive, a revisão contratual com a consequente redução de escopo e de valores, o que evidencia o zelo na gestão dos recursos públicos. As prorrogações contratuais e as contratações emergenciais foram devidamente fundamentadas em critérios técnicos e jurídicos, amparadas por pareceres especializados, não havendo qualquer irregularidade no processo licitatório.
Ressalte-se, por oportuno, que toda a fundamentação pertinente será devidamente apresentada nos autos do processo, o qual tramita sob segredo de justiça, no momento processual adequado.
A esposa do ex-prefeito Clésio Salvaro, Adriana Goulart Salvaro, por mensagem no WhatsApp, também se manifestou:
Já é de conhecimento público a brutal perseguição política contra o meu marido, mas, pelo visto, isso não basta.
Agora tentam atingir também a nossa família, movidos principalmente por setores de uma imprensa partidarizada e paga.
Eu já disse ao Clésio: largue essa vida de política, que isso acaba, pois basta entrar em ano eleitoral para que os ataques voltem.
Embora a situação seja revoltante, sigo com a consciência em paz e confiante na Justiça.
Aproveito este momento para convidar à reflexão sobre o sexto pecado capital: a inveja.
A operação do Gaeco que trata do caso foi deflagrada no dia 10 de fevereiro, por determinação do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC). As investigações seguem em andamento.